sábado, 23 de julho de 2011

Programação do Encontro "Onde há Obra, não Há Loucura"

Dia 25 de agosto (quinta-feira)

19h às 19:10h - Mesa de Abertura

19:30h às 20:30h - Palestra
Palestrante - Walter Melo (UFSJ)
Tema - Da Nau dos Insensatos ao Círculo Antropológico: a obra de arte em História da Loucura de Michel Foucault

20:40h às 21:20h - Intervalo

21:30h às 22:30h - Palestra
Palestrante - Arley Andriolo (USP)
Tema - A Questão Social no Rastro da História das Imagens do Inconsciente


Dia 26 de agosto (sexta-feira)

19h às 20:20h - Palestras
Palestrante - Ruth Bernardes (UFSJ)
Tema - O Teatro como Metáfora e como Prática Psi: duas formas de falar da experiência humana

Palestrante - Juliana Barreto (Sapos e Afogados) 
Tema - Em Cena: saúde mental, jogo de dentro jogo de fora


20:40h às 21:40h - Palestra
Palestrante - Maria Cristina Amendoeira (UFRJ)
Tema - O Museu de Imagens do Inconsciente, Adelina Gomes e o Ateliê de Pintura

21:40h às 22:30h - Apresentação Musical
Cancioneiros do IPUB (UFRJ)

P.S: Durante o Encontro haverá exposição das Obras do artista plástico Xico Santeiro, de Barbacena-MG.

Fonte: http://www.xicosanteiro.com/

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Onde há obra, não há loucura.


Nos dias 25 e 26 de agosto acontecerão o V Encontro de Arte & Saúde Mental, o V Seminário de Saúde e Educação e o II Seminário Regional da ABRAPSO: Onde há obra, não há loucura.
O Evento que está sendo organizado pelo NEPIS e o Espaço Artaud ocorrerá na Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ) e será uma comemoração ao Dia do Psicólogo (27 de agosto).

Haverá palestras de Arley Andriolo (USP); Maria Cristina Amendoeira (UFRJ); Juliana Barreto (grupo Sapos e Afogados); Ruth Bernardes e Walter Melo (UFSJ).
Além das palestras, haverá também apresentação teatral d'Os Nômades, com a peça O Universo das Coisas, e a apresentação musical dos Cancioneiros do IPUB.
Inscrição:
R$ 5,00 - só um dia
R$ 8,00 - os dois dias

Caso queira maiores informações acerca deste Evento, envie-nos um e-mail para espaco.artaud@uol.com.br ou siga o nosso blog para receber todas as atualizações por e-mail.

Participem!
Divulguem!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Arte sem Fronteiras

Resenha da coletânea “Psiquiatria, Loucura e Arte: fragmentos da história brasileira” organizada por Elionora Haddad Antunes, Lúcia Helena Siqueira Barbosa e Lygia Maria de França Pereira. São Paulo: EdUSP , 2002. Originalmente publicada em Veredas, Revista do Centro Cultural do Banco do Brasil.

Em 1978, um incêndio destruiu a maior parte do acervo do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Diversas foram as propostas para a sua reestruturação. Uma delas foi feita por Mário Pedrosa, a partir da idéia do Museu das Origens, o qual se estruturaria como cinco museus independentes, mas interligados de maneira orgânica: do índio, de arte virgem, de arte moderna, do negro e de artes populares. Se esta proposta não foi levada adiante na reestruturação do MAM, nem por isso foi descartada por completo, pois serviu de base para se conceber a exposição Brasil + 500. Nessa exposição fica clara a conexão feita por Pedrosa entre, por exemplo, Anita Malfatti e Fernando Diniz, e que se baseia no fato de que a arte moderna inspirou-se na arte daqueles que denominou de “povos periféricos”. Portanto, ao se valorizar o fato de Picasso ter sofrido influência dos povos africanos e de Klee se inspirar na pintura das crianças, nada mais justo do que colocar essas “origens” lado a lado com as pinturas modernas.
Outro ponto a ser destacado, e que muito pode nos ajudar na leitura do belo livro Psiquiatria, loucura e arte, é que essa valorização das origens coloca-se em posição oposta aos argumentos apresentados durante a exposição de “arte degenerada” organizada pelo regime nazista em 1937, numa clara tentativa de estigmatizar toda a arte moderna como fruto da insanidade pelo fato de ela se apropriar da linguagem dos indígenas, dos negros, dos loucos e das crianças como modelo artístico. O povo ariano não podia admitir que os artistas modernos degenerassem a cultura com rabiscos. Opiniões como a dos nazistas, de que se deveria banir da face da Terra idéias e pessoas que consideravam inferiores, influenciaram de maneira marcante diversos campos do conhecimento, notadamente a psiquiatria.
A psiquiatria vem, ao longo dos anos, se apoderando de qualquer produção de pessoas com transtornos mentais como índice de que o seu papel é o de isolar em asilos, de buscar as bases anatômicas das doenças mentais e de contê-las com terapêuticas como o eletrochoque e a lobotomia; ou o de lançar ideais racistas no contexto do movimento de higiene mental que demonstra o predomínio das idéias eugênicas e sua relação com a entrada de estrangeiros no país durante o governo Vargas; ou, ainda, o de se apropriar da infância por meio do discurso psiquiátrico que criou tribunais e escolas correcionais nas quais as crianças brincam no recreio num pátio cercado por arame farpado. Reformulações, no entanto, vêm ocorrendo, como, por exemplo, o deslocamento no método de usar a arte no tratamento psiquiátrico, que passa a ser visto como “ampliação cultural”, e não mais como meio de se trazer à tona conteúdos internos.
Diversos atores sociais estão presentes nessa interação entre psiquiatria, loucura e arte, caracterizando este assunto pela pluralidade discursiva e não como de exclusividade dos trabalhadores de saúde mental. A literatura, por exemplo, é um rico manancial de visões sobre o psiquiatra e o louco, e muito contribui com a história, pois, se dessa forma não fosse, Franco Basaglia não teria afirmado que a narrativa sobre Simão Bacamarte torna clara, antes mesmo das críticas e reformulações efetuadas pela psiquiatria a partir dos anos 60, a relação de dominação do médico sobre o doente baseado em seu poder constituído no saber classificativo. As classificações psiquiátricas, no entanto, não são problemáticas apenas para o alienista machadiano, mas também na relação entre médico e arquiteto no momento inaugural da psiquiatria no Brasil. A construção dos grandes asilos, no Brasil, seguiu o modelo teórico implantado por Esquirol, porém a organização do espaço se mostra inadequada pelo fato de a racionalidade classificativa empregada pela psiquiatria exigir cada vez mais espaços separados, distanciando o psiquiatra de seu ideal arquitetônico. O resgate destas concepções, que são amplamente discutidas e analisadas nos artigos desta importante coletânea, seja em relação à arquitetura, aos tratamentos preconizados, à literatura etc., constitui-se, como é afirmado no subtítulo, não como assunto de interesse de poucos, mas como “fragmentos da história brasileira”.
Por Walter Melo


Postado em 17/04/2011.

Assembléia Geral do Espaço Artaud

No dia 21 de março aconteceu a nona Assembléia Geral do Espaço Artaud, na qual foram rediscutidas as atividades realizadas nos últimos 12 meses e apresentado o plano de trabalho para este ano.

1- Em breve, teremos a oficialização do grupo de teatro Os Nômades como Ponto de Cultura, pois toda a documentação do Espaço Artaud já foi entregue na Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro.
2- Durante todo o ano de 2011, o Espaço Artaud estará na lista de projetos indicados pela BrazilFoundation para receber apoio financeiro. Para maiores informações, acesse o site:
 
3- Renata Cristian e Maria Neiva estão construindo uma nova peça de teatro-dança para Os Nômades.

4- Está previsto para os dias 25 e 26 de agosto a realização do V Encontro de Arte & Saúde Mental, em parceria com o NEPIS (Núcleo de Estudo, Pesquisa e Intevenção em Saúde), da UFSJ. O Encontro contará com a participação de Ruth Bernardes (UFSJ), Juliana Barreto (Sapos e Afogados), Arley Andriolo (USP) e Cristina Amendoeira (UFRJ), além da apresentação teatral d’Os Nômades.
 
Postado em 26/03/2011.

É preciso que o ar circule

Resenha da coletânea “Cruzando fronteiras disciplinares: um panorama dos estudos migratórios” organizada por Helion Povoa Neto e Ademir Pacelli Ferreira. Rio de Janeiro: Revan, 2005. Originalmente publicada em Latin Americam Journal of Fundamental Psycopathology.
“O primeiro que, tendo cercado um terreno, atreveu-se a dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas simples o suficiente para acreditar nele, foi o fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, quantas misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando estacas ou enchendo o fosso, houvesse gritado aos seus semelhantes: ‘Evitai ouvir esse impostor. Estamos perdidos e esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não é de ninguém!’”.Jean-Jacques Rousseau

Estamos vivendo um processo de globalização, com vários países tendo a economia unificada e com a informação circulando de maneira instantânea através da televisão e da internet. Dessa forma, as fronteiras parecem se dissipar. Por outro lado, os exemplos de defesa exacerbada dos territórios nacionais estão cada vez mais freqüentes.

As justificativas para isso giram em torno de aspectos religiosos, econômicos ou de proteção contra possíveis ataques terroristas. Para garantir as fronteiras faz-se necessário criar grupos de inimigos potenciais, baseados em preconceitos e estereótipos. A criminalização dos migrantes – intensificada após o dia 11 de setembro de 2001 – é um dos temas abordados na coletânea “Cruzando Fronteiras Disciplinares: um panorama dos estudos migratórios”, organizada por Helion Póvoa Neto e Ademir Pacelli Ferreira.

Ninguém pode se atrever a ler essa coletânea tentando fixar idéias, estabelecer estreitos limites às concepções que se desdobram e sempre se encaminham para outro lugar ao longo da leitura. Ora estamos entre “italianos” em Caxias do Sul, ora entre “alemães” no Rio de Janeiro ou em Blumenau. Podemos, também, acompanhar casamentos entre brasileiros e anglo-americanos nos Estados Unidos ou transladar ao outro lado do mundo junto com japonesas e nipo-brasileiras.

Existe, ainda, algo mais importante: não podemos nem mesmo definir as fronteiras que são ultrapassadas a partir dos tradicionais acidentes geográficos que separam cidades, Estados, países e continentes. Na coletânea, as fronteiras disciplinares também são cruzadas, ocorrendo uma incessante interpenetração de saberes. Trata-se de uma obra com a participação de profissionais de diversas áreas do conhecimento, colocando-nos em contato com o objeto de estudo: o migrante. Os trabalhos apresentados, no entanto, não buscam um objeto transcendente. Essa não poderia ser a intenção, pois na tentativa de aproximação do pesquisador em relação ao tema o próprio pesquisador acaba migrando.

De acordo com os autores, os estudos acerca do migrante se caracterizam por serem migratórios, em relação aos métodos empregados, às hipóteses levantadas, às análises apresentadas e aos conceitos utilizados. Os movimentos espaciais da população, no passado e nos dias atuais, vão estar intimamente relacionados aos aspectos subjetivos e de formação da identidade. O processo migratório apresenta-se como um dos fundamentos de transformação da sociedade, não sendo concebido como um mero reflexo das dinâmicas sociais.

Os deslocamentos citadinos ou campesinos possibilitam aos migrantes uma aventura no campo do outro. E quem é que se desloca? São pessoas isoladas ou populações inteiras em busca da resolução de problemas. Mas nessa busca pela solução dos problemas, surgem, muitas vezes, o medo e a preocupação, pois se abandona uma situação anteriormente conhecida para se viver a novidade de se estar numa cultura completamente diversa.

Os autores, no entanto, não apresentam medo do migrante e nem da conseqüente transformação daí surgida. Estão abertos às mudanças e podemos dizer que a mudança se constitui em método. A atenção que os pesquisadores dedicam ao migrante vai além da mera curiosidade intelectual. Trata-se, antes, de um engajamento junto aos sujeitos enfocados. E nesse processo de mútua migração, nessa aventura empática, o migrante surge como uma alteridade radical, como um companheiro mítico.

No Brasil, os que vieram de outras pátrias já foram desejados ou odiados. Os mais variados motivos fazem com que estrangeiros venham viver no Brasil. Essas pessoas sofrem um intenso processo de desterritorialização física, econômica, política e cultural, tendendo a criar espaços característicos onde podem cantar suas músicas, comer comidas típicas e falar a língua natal. Essas formas fundamentais de reterritorialização dos migrantes, seja em determinadas regiões, seja na diáspora, são, muitas vezes, consideradas enquistamento étnico. A tentativa de ancoragem cultural do migrante passa, então, a ser vista como um corpo estranho no organismo social, justificando tentativas de assimilação.

No entanto, não existem nem quistos étnicos nem assimilação total de uma cultura pela outra, mas intensas trocas entre territórios-rede, pois se o movimento migratório retira o sujeito de um determinado espaço, não o desterritorializa por completo: sempre permanecem geografias imaginárias que trazem memórias e emoções de países e cidades invisíveis. Nesse contexto, a psicanálise dará uma contribuição fundamental: o conceito de inconsciente permite-nos pensar num sujeito que transita, sem fronteiras, no país do Outro, independente de qualquer demarcação identitária. A vida em sociedade, no entanto, nos traz constantemente o limite de alfândegas, de portas, de grades, de cercas, de arames farpados, de muros altos: a fronteira é uma invenção do homem.

Atualmente vivemos num mundo globalizado, de livre circulação de dinheiro para quem o tem e que se mostra virulentamente odioso em relação à diversidade cultural. Mas como tudo o que é historicamente construído pode, um dia, deixar de ser como é, podemos sonhar com um mundo de maior troca afetiva e convivência entre as pessoas.

Os estudos apresentados, frutos do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM-RJ), configuram diferenciadas metodologias e são efetuados por profissionais de diversas áreas. Nesse sentido, os migrantes estudados ao longo da coletânea servem de modelo para que as hipóteses também migrem e as fronteiras que separam o conhecimento sejam ultrapassadas.

Por Walter Melo

Postado em 21/02/2011.

Piquenique do Espaço Artaud

No dia 19 de fevereiro de 2011, o Espaço Artaud realizou um piquenique de confraternização e comemoração pelo Prêmio Cultural Loucos Pela Diversidade 2009 – Edição Austregésilo Carrano, no qual fomos contemplados com o projeto Os Nômades companhia de teatro – a transformação do cotidiano através da arte.
O prêmio, uma iniciativa da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SID/MinC) e do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS/FIOCRUZ), contemplou 55 projetos culturais de instituições públicas, ONGs, grupos autônomos e pessoas físicas. A lista completa pode ser consultada na página do Ministério da Cultura:
Com a verba recebida do prêmio, confeccionamos camisas para o grupo de teatro, fizemos um passeio à cidade histórica de Tiradentes -MG e, parte do dinheiro, foi dividido entre os atores que atuaram n'Os Nômades nos anos de 2009 e de 2010.
O local escolhido para o piquenique foi o jardim do Parque Lage -RJ, onde fomos brindados com uma bela manhã de sol, mas com bastante sombra para que todos pudessem aproveitar, conversar e se divertir. Durante a confraternização, estiveram presentes, além dos atores d’Os Nômades, sócios fundadores e colaboradores, assim como pessoas que já colaboraram com o Espaço Artaud.

As fotos do piquenique estão na sessão de slides, no rodapé do Blog. Confiram!

Aproveitamos para agradecer ao apoio fundamental do Catsapá – Escola de Musicais http://www.catsapa.com.br/, instituição privada que, desde 2005, cede seu espaço físico gratuitamente para os ensaios d’Os Nômades.

Postado em 20/02/2011

Interferir na Realidade, o primado anti-romântico de Boal

Teatro para Augusto Boal é luta. Podemos verificar essa afirmação ao longo de sua obra. Trata-se de uma luta para interferir na realidade, principalmente em países como o Brasil, com imensas desigualdades sócio-econômicas. Pautado no materialismo histórico, Boal afirma que “a ação dramática deve mostrar-se (...) como uma ‘contradição de necessidades sociais’” (1977, p. 20).

O teatro proposto por Boal se contrapõe, então, à expressão de estados da alma. Os conflitos lhe interessam acima de tudo e, mais ainda, os conflitos sociais que ocorrem no cotidiano da vida das pessoas. O caráter inter-relacional da arte se sobrepõe à exibição das emoções, pois pretende criar empatia entre o personagem e a platéia; e, mais que isso, pretende um teatro dinâmico, com uma ligação emocional dinâmica; e, mais que isso, pretende um teatro da ação transformadora através da “emoção dialética” (Boal, 1977, p. 48).

A emoção encontra-se no cerne da ação dramática e em seu potencial de transformação do mundo. Não se trata, porém, de criar personagens como se fossem “lagoas de emoção” (Boal, 1977, p. 49). As emoções devem estar inextricavelmente ligadas às vontades, ou seja, às concretizações de idéias. As emoções abstratas somente interessam a Boal como ponto de partida para a construção de algo que seja efetivamente teatral. Para se realizar teatro, os personagens devem desejar no plano concreto, em situações bem determinadas: “a idéia abstrata, transformada em vontade concreta em determinada circunstância, provocará no ator a emoção que por si própria irá descobrir a forma teatral adequada, válida e eficaz para o espectador” (p. 51).

Como, em situações concretas, cada um deseja algo diverso, o conflito constitui-se como marca essencial da teatralidade, caracterizando a interpretação como uma estrutura dialética. A esse teatro, definido pelo conflito, pela luta, vão se juntar as noções de que todos os seres humanos são atores (inclusive os profissionais) e de que não devemos buscar a arte pela arte.

A premissa de que todo ser humano pode representar está diretamente relacionada com o caráter de não autonomia da arte. Partindo do princípio de que a arte dita desinteressada serve a interesses opressores, Boal assume o caráter de transformação social da arte, que “deve responder a desafios da realidade” (1977, p. 18). Os artistas devem, então, se dirigir às pessoas que mais enfrentam desafios na vida. Quais são essas pessoas? Quem compõe o público de Augusto Boal? A resposta: os oprimidos.

Podemos observar que, para Boal, não há como desvincular teatro e política. Sendo clara a sua opção pela política de esquerda. Sendo assim, desde o início da carreira, no Teatro de Arena, procurou estabelecer diálogo com os oprimidos, pretendendo a transformação da sociedade: “o primeiro dever da esquerda é o de incluir o povo como interlocutor do diálogo teatral” (1970, p. 47). Se o interlocutor privilegiado é o povo, o local propício é a praça.

Os modos de Augusto Boal fazer teatro variam, porém a coerência de fazer teatro para o povo se mantém. Melhor dizendo, não se trata de fazer teatro para o povo, mas sim de fazer teatro com o povo. Daí, não só atores e não-atores poderem fazer teatro, mas é necessário compreender que todo ser humano é teatro (Boal, 1996). Para Boal, o ser humano se caracteriza pela capacidade de observar as próprias ações, ou seja, pela capacidade de ser teatro. Nesse caso, a dicotomia entre ator e espectador existe somente como maneira de os seres humanos especializarem os seus fazeres sociais, quando alguns atuam e outros assistem. Já no Teatro do Oprimido somos todos Spec-Atores.

O Teatro do Oprimido se constitui, então, através de um longo percurso e de criação de diferentes formas de se fazer teatro, que passa pela direção artística do Teatro de Arena (1956-1971), pelo Agit-Prop (agitação e propaganda), pela Dramaturgia Simultânea, pelo Teatro do Invisível, pelo Teatro Fórum e pelo Arco-Íris do Desejo. Esse último é definido como método Boal de teatro e terapia.

Sempre me interessei pela interface entre o campo da saúde, mais especificamente da saúde mental, com as artes. Desde os tempos em que trabalhei na Casa das Palmeiras até os dias de hoje, no Espaço Artaud (que se coloca numa região de fronteiras entre a terapia, a reabilitação psicossocial e a arte) e no Núcleo de Estudo, Pesquisa e Intervenção em Saúde (NEPIS), da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ).

Essa “superposição de terrenos” (Boal, 1996, p. 24) supõe que estejamos abertos a parcerias. Sendo a construção de parcerias uma das marcas registradas do trabalho desenvolvido por Nise da Silveira a frente do Museu de Imagens do Inconsciente e da Casa das Palmeiras, e que levei adiante na construção do Espaço Artaud. Afinal, ninguém vai sozinho ao paraíso (Melo, 2005).

Em 1993, durante uma reunião de equipe da Casa das Palmeiras, sugeri que entrássemos em contato com Augusto Boal para reorganizarmos a atividade de teatro (Melo, 2001; 2009). A psicóloga Cristina Frederico fez contato com Geo Britto, curinga do Centro de Teatro do Oprimido (CTO). Dessa forma, Geo Britto estabeleceu uma importante parceria entre o CTO e a Casa das Palmeiras, onde passou a fazer parte da equipe e a desenvolver técnicas de Teatro do Oprimido durante quatro anos (Britto, 2001).
Por Walter Melo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
:
BOAL, A. (1970). Que Pensa Você da Arte de Esquerda? Latin American Theatre Review, vol. 3, n. 2, p. 45-53.
__________. (1977). 200 Exercícios e Jogos para o Ator e o Não-Ator com Vontade de Dizer Algo através do Teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
__________. (1996). O Arco-Íris do Desejo: método Boal de teatro e terapia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
BRITTO, G. (2001). Carta de um Discípulo à sua Mestra. Metaxis, ano I, n. 1, p. 16-17.
MELO, W. (2001). Nise da Silveira. Rio de Janeiro/Brasília: Imago/CFP.
__________. (2005). Ninguém Vai Sozinho ao Paraíso: o percurso de Nise da Silveira na psiquiatria do Brasil. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: UERJ.
__________. (2009). O Terapeuta como Companheiro Mítico: ensaios de psicologia analítica. Rio de Janeiro: Espaço Artaud.


Postado em 16/02/2011.