Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Onde há obra, não há loucura.


Nos dias 25 e 26 de agosto acontecerão o V Encontro de Arte & Saúde Mental, o V Seminário de Saúde e Educação e o II Seminário Regional da ABRAPSO: Onde há obra, não há loucura.
O Evento que está sendo organizado pelo NEPIS e o Espaço Artaud ocorrerá na Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ) e será uma comemoração ao Dia do Psicólogo (27 de agosto).

Haverá palestras de Arley Andriolo (USP); Maria Cristina Amendoeira (UFRJ); Juliana Barreto (grupo Sapos e Afogados); Ruth Bernardes e Walter Melo (UFSJ).
Além das palestras, haverá também apresentação teatral d'Os Nômades, com a peça O Universo das Coisas, e a apresentação musical dos Cancioneiros do IPUB.
Inscrição:
R$ 5,00 - só um dia
R$ 8,00 - os dois dias

Caso queira maiores informações acerca deste Evento, envie-nos um e-mail para espaco.artaud@uol.com.br ou siga o nosso blog para receber todas as atualizações por e-mail.

Participem!
Divulguem!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Arte sem Fronteiras

Resenha da coletânea “Psiquiatria, Loucura e Arte: fragmentos da história brasileira” organizada por Elionora Haddad Antunes, Lúcia Helena Siqueira Barbosa e Lygia Maria de França Pereira. São Paulo: EdUSP , 2002. Originalmente publicada em Veredas, Revista do Centro Cultural do Banco do Brasil.

Em 1978, um incêndio destruiu a maior parte do acervo do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Diversas foram as propostas para a sua reestruturação. Uma delas foi feita por Mário Pedrosa, a partir da idéia do Museu das Origens, o qual se estruturaria como cinco museus independentes, mas interligados de maneira orgânica: do índio, de arte virgem, de arte moderna, do negro e de artes populares. Se esta proposta não foi levada adiante na reestruturação do MAM, nem por isso foi descartada por completo, pois serviu de base para se conceber a exposição Brasil + 500. Nessa exposição fica clara a conexão feita por Pedrosa entre, por exemplo, Anita Malfatti e Fernando Diniz, e que se baseia no fato de que a arte moderna inspirou-se na arte daqueles que denominou de “povos periféricos”. Portanto, ao se valorizar o fato de Picasso ter sofrido influência dos povos africanos e de Klee se inspirar na pintura das crianças, nada mais justo do que colocar essas “origens” lado a lado com as pinturas modernas.
Outro ponto a ser destacado, e que muito pode nos ajudar na leitura do belo livro Psiquiatria, loucura e arte, é que essa valorização das origens coloca-se em posição oposta aos argumentos apresentados durante a exposição de “arte degenerada” organizada pelo regime nazista em 1937, numa clara tentativa de estigmatizar toda a arte moderna como fruto da insanidade pelo fato de ela se apropriar da linguagem dos indígenas, dos negros, dos loucos e das crianças como modelo artístico. O povo ariano não podia admitir que os artistas modernos degenerassem a cultura com rabiscos. Opiniões como a dos nazistas, de que se deveria banir da face da Terra idéias e pessoas que consideravam inferiores, influenciaram de maneira marcante diversos campos do conhecimento, notadamente a psiquiatria.
A psiquiatria vem, ao longo dos anos, se apoderando de qualquer produção de pessoas com transtornos mentais como índice de que o seu papel é o de isolar em asilos, de buscar as bases anatômicas das doenças mentais e de contê-las com terapêuticas como o eletrochoque e a lobotomia; ou o de lançar ideais racistas no contexto do movimento de higiene mental que demonstra o predomínio das idéias eugênicas e sua relação com a entrada de estrangeiros no país durante o governo Vargas; ou, ainda, o de se apropriar da infância por meio do discurso psiquiátrico que criou tribunais e escolas correcionais nas quais as crianças brincam no recreio num pátio cercado por arame farpado. Reformulações, no entanto, vêm ocorrendo, como, por exemplo, o deslocamento no método de usar a arte no tratamento psiquiátrico, que passa a ser visto como “ampliação cultural”, e não mais como meio de se trazer à tona conteúdos internos.
Diversos atores sociais estão presentes nessa interação entre psiquiatria, loucura e arte, caracterizando este assunto pela pluralidade discursiva e não como de exclusividade dos trabalhadores de saúde mental. A literatura, por exemplo, é um rico manancial de visões sobre o psiquiatra e o louco, e muito contribui com a história, pois, se dessa forma não fosse, Franco Basaglia não teria afirmado que a narrativa sobre Simão Bacamarte torna clara, antes mesmo das críticas e reformulações efetuadas pela psiquiatria a partir dos anos 60, a relação de dominação do médico sobre o doente baseado em seu poder constituído no saber classificativo. As classificações psiquiátricas, no entanto, não são problemáticas apenas para o alienista machadiano, mas também na relação entre médico e arquiteto no momento inaugural da psiquiatria no Brasil. A construção dos grandes asilos, no Brasil, seguiu o modelo teórico implantado por Esquirol, porém a organização do espaço se mostra inadequada pelo fato de a racionalidade classificativa empregada pela psiquiatria exigir cada vez mais espaços separados, distanciando o psiquiatra de seu ideal arquitetônico. O resgate destas concepções, que são amplamente discutidas e analisadas nos artigos desta importante coletânea, seja em relação à arquitetura, aos tratamentos preconizados, à literatura etc., constitui-se, como é afirmado no subtítulo, não como assunto de interesse de poucos, mas como “fragmentos da história brasileira”.
Por Walter Melo


Postado em 17/04/2011.

Interferir na Realidade, o primado anti-romântico de Boal

Teatro para Augusto Boal é luta. Podemos verificar essa afirmação ao longo de sua obra. Trata-se de uma luta para interferir na realidade, principalmente em países como o Brasil, com imensas desigualdades sócio-econômicas. Pautado no materialismo histórico, Boal afirma que “a ação dramática deve mostrar-se (...) como uma ‘contradição de necessidades sociais’” (1977, p. 20).

O teatro proposto por Boal se contrapõe, então, à expressão de estados da alma. Os conflitos lhe interessam acima de tudo e, mais ainda, os conflitos sociais que ocorrem no cotidiano da vida das pessoas. O caráter inter-relacional da arte se sobrepõe à exibição das emoções, pois pretende criar empatia entre o personagem e a platéia; e, mais que isso, pretende um teatro dinâmico, com uma ligação emocional dinâmica; e, mais que isso, pretende um teatro da ação transformadora através da “emoção dialética” (Boal, 1977, p. 48).

A emoção encontra-se no cerne da ação dramática e em seu potencial de transformação do mundo. Não se trata, porém, de criar personagens como se fossem “lagoas de emoção” (Boal, 1977, p. 49). As emoções devem estar inextricavelmente ligadas às vontades, ou seja, às concretizações de idéias. As emoções abstratas somente interessam a Boal como ponto de partida para a construção de algo que seja efetivamente teatral. Para se realizar teatro, os personagens devem desejar no plano concreto, em situações bem determinadas: “a idéia abstrata, transformada em vontade concreta em determinada circunstância, provocará no ator a emoção que por si própria irá descobrir a forma teatral adequada, válida e eficaz para o espectador” (p. 51).

Como, em situações concretas, cada um deseja algo diverso, o conflito constitui-se como marca essencial da teatralidade, caracterizando a interpretação como uma estrutura dialética. A esse teatro, definido pelo conflito, pela luta, vão se juntar as noções de que todos os seres humanos são atores (inclusive os profissionais) e de que não devemos buscar a arte pela arte.

A premissa de que todo ser humano pode representar está diretamente relacionada com o caráter de não autonomia da arte. Partindo do princípio de que a arte dita desinteressada serve a interesses opressores, Boal assume o caráter de transformação social da arte, que “deve responder a desafios da realidade” (1977, p. 18). Os artistas devem, então, se dirigir às pessoas que mais enfrentam desafios na vida. Quais são essas pessoas? Quem compõe o público de Augusto Boal? A resposta: os oprimidos.

Podemos observar que, para Boal, não há como desvincular teatro e política. Sendo clara a sua opção pela política de esquerda. Sendo assim, desde o início da carreira, no Teatro de Arena, procurou estabelecer diálogo com os oprimidos, pretendendo a transformação da sociedade: “o primeiro dever da esquerda é o de incluir o povo como interlocutor do diálogo teatral” (1970, p. 47). Se o interlocutor privilegiado é o povo, o local propício é a praça.

Os modos de Augusto Boal fazer teatro variam, porém a coerência de fazer teatro para o povo se mantém. Melhor dizendo, não se trata de fazer teatro para o povo, mas sim de fazer teatro com o povo. Daí, não só atores e não-atores poderem fazer teatro, mas é necessário compreender que todo ser humano é teatro (Boal, 1996). Para Boal, o ser humano se caracteriza pela capacidade de observar as próprias ações, ou seja, pela capacidade de ser teatro. Nesse caso, a dicotomia entre ator e espectador existe somente como maneira de os seres humanos especializarem os seus fazeres sociais, quando alguns atuam e outros assistem. Já no Teatro do Oprimido somos todos Spec-Atores.

O Teatro do Oprimido se constitui, então, através de um longo percurso e de criação de diferentes formas de se fazer teatro, que passa pela direção artística do Teatro de Arena (1956-1971), pelo Agit-Prop (agitação e propaganda), pela Dramaturgia Simultânea, pelo Teatro do Invisível, pelo Teatro Fórum e pelo Arco-Íris do Desejo. Esse último é definido como método Boal de teatro e terapia.

Sempre me interessei pela interface entre o campo da saúde, mais especificamente da saúde mental, com as artes. Desde os tempos em que trabalhei na Casa das Palmeiras até os dias de hoje, no Espaço Artaud (que se coloca numa região de fronteiras entre a terapia, a reabilitação psicossocial e a arte) e no Núcleo de Estudo, Pesquisa e Intervenção em Saúde (NEPIS), da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ).

Essa “superposição de terrenos” (Boal, 1996, p. 24) supõe que estejamos abertos a parcerias. Sendo a construção de parcerias uma das marcas registradas do trabalho desenvolvido por Nise da Silveira a frente do Museu de Imagens do Inconsciente e da Casa das Palmeiras, e que levei adiante na construção do Espaço Artaud. Afinal, ninguém vai sozinho ao paraíso (Melo, 2005).

Em 1993, durante uma reunião de equipe da Casa das Palmeiras, sugeri que entrássemos em contato com Augusto Boal para reorganizarmos a atividade de teatro (Melo, 2001; 2009). A psicóloga Cristina Frederico fez contato com Geo Britto, curinga do Centro de Teatro do Oprimido (CTO). Dessa forma, Geo Britto estabeleceu uma importante parceria entre o CTO e a Casa das Palmeiras, onde passou a fazer parte da equipe e a desenvolver técnicas de Teatro do Oprimido durante quatro anos (Britto, 2001).
Por Walter Melo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
:
BOAL, A. (1970). Que Pensa Você da Arte de Esquerda? Latin American Theatre Review, vol. 3, n. 2, p. 45-53.
__________. (1977). 200 Exercícios e Jogos para o Ator e o Não-Ator com Vontade de Dizer Algo através do Teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
__________. (1996). O Arco-Íris do Desejo: método Boal de teatro e terapia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
BRITTO, G. (2001). Carta de um Discípulo à sua Mestra. Metaxis, ano I, n. 1, p. 16-17.
MELO, W. (2001). Nise da Silveira. Rio de Janeiro/Brasília: Imago/CFP.
__________. (2005). Ninguém Vai Sozinho ao Paraíso: o percurso de Nise da Silveira na psiquiatria do Brasil. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: UERJ.
__________. (2009). O Terapeuta como Companheiro Mítico: ensaios de psicologia analítica. Rio de Janeiro: Espaço Artaud.


Postado em 16/02/2011.

Espaço Artaud e FIOCRUZ: pesquisa e evento

A pesquisa Cartografia das ações sócio-culturais no âmbito da saúde mental e o impacto dos projetos culturais na vida das pessoas em sofrimento psíquico no Estado do Rio de Janeiro, coordenada por Paulo Amarante (LAPS - ENSP - FIOCRUZ), fez uma entrevista com Renata Cristian, diretora d'Os Nômades, sobre sua trajetória antes de chegar no grupo, sua inserção no Espaço Artaud, o método de trabalho empregado e a importância desse trabalho em sua vida.

Renata Cristian foi convidada, ainda, para participar do Seminário Internacional: Cartografia Cultural - as dobras da loucura, que acontecerá na FIOCRUZ nos dias 01, 02 e 03 de dezembro.

Postado em 30/11/2010.

IV Encontro de Arte & Saúde Mental

Ainda estão abertas as inscrições para o IV Encontro de Arte & Saúde Mental: o paradigma estético na clínica de Nise da Silveira, que ocorrerá nos dias 23 e 24 de setembro deste ano, no Teatro Noel Rosa, na UERJ.
Além da programação de palestras e das atividades culturais, teremos também espaço para apresentação de comunicações orais, que seguirão os seguintes eixos:

1) Os paradigmas da construção do SUS
2) Novas perspectivas da reforma psiquiátrica brasileira
3) A diversidade da loucura e da arte
4) Desdobramentos da psicologia analítica, a partir de Nise da Silveira

Os trabalhos deverão ser enviados com, no máximo, 600 palavras, em arquivo PDF até o dia 30 de junho de 2010, para espaco.artaud@uol.com.br
Clique nos links abaixo para fazer o download do cartaz e do folder com a programação completa:
www.4shared.com/document/XFXqiZGS/folder-correto.html
www.4shared.com/photo/K8KdvF9V/cartaz.html



Postado em 18/05/2010

Nise da Silveira

É com notável delicadeza que Walter Melo descreve a trajetória de Nise da Silveira, uma das mais singulares personagens da história da psiquiatria brasileira, talvez a mais revolucionária e mais desafiante. Quem, seja pertencente ao campo “psi”, ou ao mundo mais abrangente da cultura brasileira, não teve a oportunidade de esbarrar, em algum momento, no próprio caminho, com vias desbravadas pela doutora Nise
Por Monique Augras

Há alguns anos, escrevendo sobre a psiquiatra Nise da Silveira no jornal “Rio Artes”, Wilson Coutinho afirmou: “Não há dúvidas que as gerações futuras saberão honrá-la mais do que nós”. Antes talvez do que supunha o crítico, surge, na coleção Pioneiros da Psicologia Brasileira, vol. 4, a primeira biografia daquela que ficou conhecida como revolucionária da psiquiatria brasileira. Escrita pelo psicólogo Walter Melo, um de seus discípulos e a quem ela chamava de escafandrista, em alusão à fineza de sua sensibilidade, que lhe possibilitava mergulhos penetrantes nos estudos da psique, esta biografia conjuga ciência com conhecimento da personalidade e da teoria de Nise.
Por Élvia Bezerra- O Globo

Trata-se de um precioso ensaio biográfico sobre Nise da Silveira.
Por José Castello - Estado de São Paulo

A obra de Nise da Silveira, de autoria de Walter Melo, compõe o volume 4 da coleção Pioneiros da Psicologia Brasileira, editada pela Imago e Conselho Federal de Psicologia, numa iniciativa das mais oportunas.
É possível que, entre as dezenas de autores que merecerão uma obra na coleção, poucos terão a vantagem de ter sua biografia analisada com a atenção e a intimidade critica dedicada por Melo a Nise da Silveira.
Solidez teórica, discurso fluente, testemunho de uma convivência próxima fazem da obra uma conversa descontraída com o leitor.
Por José Moreira de Souza

Postado em 18/04/2010